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          O olho de vidro do meu av 

          Bartolomeu Campos de Queirs

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Impresso Braille em volume 
nico na diagramao de 28 linhas por 34 caracteres, da 1 edio Editora Moderna, 2004.
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          Volume nico

          Ministrio da Educao 
          Instituto Benjamin Constant
          Av. Pasteur, 350-368 -- Urca
          22290-240 Rio de Janeiro
          RJ -- Brasil
          Tel.: (0xx21) 3478-4400
          Fax: (0xx21) 3478-4444
          E-mail: ~,ibc@ibc.gov.br~,
          ~,http:www.ibc.gov.br~,
          -- 2007 --
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          (C) Bartolomeu Campos 
          de Queirs 

          Coordenao editorial:
          Maristela Petrili de A. Leite 
          Edio de texto:
          Erika Alonso 
          
          ISBN 85-16-04192-1

          Todos os direitos reservados 

          EDITORA MODERNA LTDA. 
          Rua Padre Adelino,  
          758 -- Belenzinho
          So Paulo -- SP -- Brasil --
          CEP 03303-904
          Tel.: (0xx11) 6090-1500
          Fax: (0xx11) 6090-1501
          ~,www.moderna.com.br~,
          -- 2006 --

          Impresso no Brasil 
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                               I
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 Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)
 (Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
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Queirs, Bartolomeu Campos de
  O olho de vidro do meu av / 
 / Bartolomeu Campos de 
 Queirs. -- 1. ed. -- So 
 Paulo : Moderna, 2004. -- (Coleo veredas)

  1. Literatura infanto-juvenil I. Ttulo. II. 
Srie.

 04-2926            CDD-028`.5

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 ndices para catlogo siste-
  mtico:
 1. Literatura infanto-juvenil 028`.5
 2. Literatura juvenil 028`.5

 ISBN 85-16-04192-1
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Bartolomeu Campos de Queirs 

  Nascido em Minas Gerais, em 1944, Bartolomeu Campos de Queirs  autor de vrios livros para crianas, de peas teatrais e de textos sobre arte-educao. Sua obra -- geralmente prosa potica -- lhe valeu diversos prmios. Bem-humorado, apreciador do silncio sobre todas as coisas, Bartolomeu costuma dizer: "Sou frgil o suficiente para uma palavra me machucar, como sou forte o bastante para uma palavra me ressuscitar".
  Com esta obra, o escritor recebeu o 2 lugar do Prmio Jabuti (CBL) e o Prmio Orgenes Lessa -- O melhor para o jovem -- "Hors Concours" (FNLIJ), alm de ter obtido o primeiro lugar no Prmio Nestl de Literatura 2005.

So Paulo, 1 edio, 2004
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                          III
Autor e obra 

  Nascido em Minas Gerais, 
 Bartolomeu Campos de Queirs  autor de vrios livros para crianas, de peas teatrais e textos sobre arte-educao. Teve o seu primeiro livro, *O peixe e o pssaro*, premiado em 1971. Depois vieram *Pedro, Onde tem bruxa tem fada, Faca afiada, Ciganos, Flora, Indez, Correspondncia, Cavaleiros das Sete Luas, Por parte de pai, Menino de Belm, At passarinho passa, Vida e obra de Aletrcia depois de 
 Zoroastro*, entre outros.
  Recebeu os mais significativos prmios no Brasil por seu trabalho literrio: Selo de Ouro da Fundao Nacional do Livro 
 Infantil e Juvenil, Prmio Bienal Internacional de So Paulo, Prmio Joo de Barro da Prefeitura de Belo Horizonte, O melhor para Jovem -- Fundao Nacional do Livro Infantil e Juvenil, Prmio Jabuti da Cmara Brasileira do Livro, Grande Prmio da APCA -- Associao Paulista dos Crticos de Arte, Prmio Orgenes Lessa -- Fundao Nacional do Livro Infantil e Juvenil, Diploma de Honra do IBBY, Quatrime Octogonal -- Frana, Rosa Blanca de Cuba, Bienal de Belo Horizonte.
  Bem-humorado, apreciador do silncio, Bartolomeu costuma dizer: "Sou frgil o suficiente para uma palavra me machucar, como sou forte o bastante para uma palavra me ressuscitar".

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P.S. Saiba mais em seu endereo na internet: 
 ~,www.caleidoscopio.art.br~
  bartolomeuqueiros~, 
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                               V
O olho de vidro do meu av 

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Era da cor do mar 
o olho de vidro azul do av. 
Mas, com seu olho que no via, 
ele espiava o miolo das coisas. 
Buscando ajuda da imaginao, 
o av visitava lugares 
que o olhar no alcanava. 
E o neto, amigo e amado, 
tentava adivinhar 
o mistrio escondido 
no olho de vidro do seu av. 
<F+>

Prezado(a) Leitor(a),

  Este livro  de uso coletivo. Como, alm de voc, muitos leitores tero acesso a ele, certos cuidados ao utiliz-lo so muito importantes:
<R+>
 manuseie-o com as mos limpas.
 evite comer ou beber enquanto estiver lendo.
 procure mant-lo bem conservado, sem rabiscos, dobras e sem recortes.
 ao concluir a leitura, devolva-o para a biblioteca. 
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Contamos com sua colaborao.
 Boa leitura.

               ::::::::::::::::::::::::

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Esta obra ganhou os seguintes prmios

 Prmio Altamente Recomendvel, FNLIJ 2004
 Prmio O Melhor para o Jovem, "Hors Concours", FNLIJ 2004
 Prmio Nestl de Literatura, 2005
 Prmio Jabuti, 2005
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               ::::::::::::::::::::::::

Para Maria das Graas.

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 "A infncia que j no existe presentemente, existe no passado que j no ." 
 Santo Agostinho 
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<Tolho de vidro av>
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  Era de vidro o seu olho esquerdo. De vidro azul-claro e parecia envernizado por uma eterna noite. Meu av via a vida pela metade, eu cismava, sem fazer meias perguntas. Tudo para ele se resumia em um meio-mundo. Mas via a vida por inteiro, eu sabia. Seu olhar, muitas vezes, era parado como se tudo estivesse num mesmo ponto. E estava. Ele nos doava um sorriso leve com meio canto da boca, como se zombando de ns. O pensamento v o mundo melhor que os olhos, eu tentava justificar. O pensamento atravessa as cascas e alcana o miolo das coisas. Os olhos s acariciam as superfcies. Quem toca o bem dentro de ns  a imaginao. 
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  Meu av imaginava sempre, eu acreditava. Vencia as horas lerdas deixando o mundo invadi-lo por inteiro. Ele hospedava essa visita sem espanto. Saboreava o mundo com antiga fome. O que seu olho de vidro no via, ele fantasiava. E inventava bonito, pois eram da cor do mar os seus olhos. E todo mar  belo por ser grande demais. Tudo cabe dentro de sua imensido: viagens, sonhos, partidas, chegadas, mergulhos e afogamentos. H que se contar o desassossego que as guas nos provocam. Nunca soube se meu av conhecia o mar. Sua cidade ficava bem no meio das minas. Sei que morava entre um mar de montanhas, um mar de filhos, um mar de paixo e um mar de dvidas. E devia ser sem tamanho o seu olhar de vidro. Ele parecia conhecer at o depois dos oceanos.
  Ao ficar diante de meu av eu me sentia apenas um menino em seus olhos. Se algum nos olha nos multiplica. Passamos a ser dois. Somos duas meninas dos olhos. Mas no olhar de meu av eu s podia ser um. E ser dois  ter um 
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companheiro para aventurar, outro irmo para as errncias. Assim,  sempre possvel jogar nossa culpa no outro. E ele desculpa sempre. Toda pessoa  gmea de si mesma. H sempre um outro escondido dentro de ns que nos vigia em silncio. S aqueles que possuem um olhar de vidro no refletem isso. Meu av me reduzia, me fazia solitrio. Eu me sentia nico, rfo, sem portas para sadas. 
  Dizem que ele viajou para So Paulo. Naquele tempo, So Paulo ficava quase em outro pas. Foi comprar esse olho que no via. Ele jamais acreditou que, em terra de cego, quem tem um olho  rei. Venceu longos dias de estrada, poeira, lama, fantasiado de pirata, como se fosse carnaval. Tudo para conquistar um olho. Meu av era vaidoso, mesmo sem desejar ter reinado. 
  Voltou com dois olhos, mas apreciando a paisagem apenas com o lado direito. Pelo olho esquerdo ele s adivinhava. Um olho era de mentira e o outro de verdade. Mas isso no lhe trazia problemas. Cego  aquele que no quer ver. Ele via muito. Tudo no mundo , em parte, uma verdade e, por outra parte, uma mentira.
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  Com o olho direito meu av via o sol, a luz, o futuro, o meio-
-dia. Com o olho esquerdo ele via a lua, o escuro, o passado, a meia-noite. Um dia me falaram que a alma tem dois olhos. Com um, ela olha para o tempo, com o outro, ela namora a eternidade. Um olho  do amor e o outro  do desamor. Mas eu no conhecia a alma. Sei que se fosse boa ia morar no cu. Se fosse m estaria, para sempre, no caldeiro do inferno. Aprendi isso no catecismo.
  Ningum esgota o mundo com o olhar, mesmo possuindo dois olhos sem vidro. Mas a gente, com dois olhos, sempre olha e no acredita no que v. Mas meu av desejava que toda a cidade o visse com dois olhos, o que de fato era uma meia-
-verdade. Mas, com o passar dos anos, o povo esqueceria qual olho era o de ver e qual olho era o de enfeitar. Qual era o passado e qual o futuro. As pessoas confundem os lados com muita facilidade. Nunca esqueceriam que um olho era o de mentira, feito em So Paulo. Jamais decifrei por que So Paulo tinha uma fbrica de olhos cegos.
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  Tenho medo da palavra verdade.  to crua. Parece feita de faca. A palavra verdade no permite o erro, da no conhecer o perdo. A verdade, se existe, deve ser exagerada demais.  maior que o mar. O mar tem margens e a verdade no. A verdade no possui fronteiras. A verdade no permite perguntas. A verdade  uma resposta quase falsa. A verdade invade. Eu sempre acreditei mais no olho da mentira do que no olho da verdade. Com o olho da mentira meu av s me via com encantos.
  Fui criado por via das dvidas. Quando adoecia, minha me chamava o farmacutico, por via das dvidas. Mas, por via das dvidas, acendia uma vela. Por via das dvidas escaldava um ch. Por via das dvidas mandava benzer. E eu, por via das dvidas, voltava a ter sade. A dvida sempre me salvou. As pessoas que cismam ter encontrado a verdade me assustam. Da gostar de meu av. Ele sempre duvidava do que via. E se via, fazia de conta que no via. Ele escolhia o que ver. Quando nos negamos a ver  porque j vimos. E fica impossvel desver. 
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  Eu gosto da palavra crena. Ter crena  ser mais brando,  poder mudar, trocar de lado, ser um dia sim e outro no.  no ser certo nem dar certeza. E a crena do outro pode encantar voc, lhe deixando apaixonado. Na paixo mudamos de lugar. Na paixo voc  feliz por cumprir a crena do outro. A crena escuta. Quem possui a verdade, apenas fala. Meu av devia viver em dvida. No sabia, ao certo, o que seu olhar alcanava.
  Ele se recostava na cadeira de balano e se embalava de mansinho como se o mundo morasse em seu 
 colo. Balanava leve para no acordar o silncio. Guardava uma secreta ternura pelo silncio. Com ele aprendi que no silncio cabe tudo. O silncio decifra todos os labirintos. No existe um s rudo que o silncio no escute.
  Muitas vezes esse silncio se misturava com o cheiro do alho que minha av refogava para o arroz; possua o aroma do caf coado na hora; tinha o gosto dos sonhos que minha av fritava e cobria com acar e canela. E se era por demais imenso o silncio, exalava entre 
ele um
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perfume das dlias que enfeitavam o canto da sala. O silncio  essncia. Se o olho do meu av via, era uma viso em silncio.   
  Envolvido pelo silncio, meu av dispensava os olhos. Abaixava as plpebras e buscava outras lonjuras. O silncio era seu bilhete para viagens. Esse sossego se prolongava por grandes horas. Eu buscava adivinhar as terras que meu av desvendava, as mos que ele apertava, os oceanos que atravessava, o corao em que se deitava. Mas todo o meu esforo se tornava pequeno diante de tanto segredo e suspiro. Ento meu carinho abraava meu av sem necessitar de mos. Estvamos envolvidos de emudecimento. 
  Um dia eu virei meu av. Minha me me vestiu de pirata. Eu nem sabia o que era carnaval. Meu desejo era afastar a venda que cobria o meu olho e me impedia de ver melhor. Faltava luz para o meu olhar. Mas sem a venda eu deixaria de ser pirata e ainda mataria a alegria da minha me de me ver como seu pai. Com um olho eu via o baile, as mscaras, os disfarces. Com o outro eu invadia caravelas, assaltava
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navios, vencia mares, me assustava com os tesouros. Como meu av, eu via o visvel e me encantava com o invisvel. No ter um olho  ver duas vezes. Com um olho voc v o raso e com o outro mergulha o fundo. 
  Quase sempre eu sentia que o olho de vidro do meu av queria enxergar. Fazia um esforo sem tamanho. Enquanto o da direita via todos os lados, o olho da esquerda restava imvel, fixo, preso, pregado, insistindo em imaginar o que estava em sua frente. Era triste e feio ver meu av olhar de soslaio, ou melhor, tentar olhar de banda. Um olho ia e o outro ficava. Eu sempre me colocava em frente ao meu av. Tinha receio de ficar ao lado e seu olhar no me encontrar. Nunca desejei me perder de meu av. Jamais gostei de v-lo do lado feio. Nas histrias que me contavam havia sempre bruxas zarolhas. Com o olhar elas infernavam tudo. Viajavam pelo mundo envenenando os caminhos, transformando o fogo em gua, o bem em mal, o direito em esquerdo, ratos em morcegos. Mas toda bruxa tem dois lados. Para fazer o mal tem que conhecer o bem. E meu av, visto de frente, encarando
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a linha do horizonte, era um homem bonito, assim com o seu largo olhar paralelo.
  Eu carregava dentro de mim um desejo escuro. Vontade de saber se meu av retirava seu olho na hora de dormir. Havia sempre, sobre o criado, que alm de mudo era cego, um pires. No parecia com o pires de Santa Luzia. Mas bem serviria de bero para um olho cansado de nada ver. Um olho que era e no era.
  Eu tambm gostaria de possuir um olho assim, que ficasse distante de mim, sobre o criado. Ter meu olho me espiando de longe. Quem sabe, eu me conheceria melhor? Conheceria minha superfcie sem precisar de espelho. Um olho capaz de vigiar meu sono, me protegendo dos fantasmas que nos visitam se descuidamos de ns. E dormir  descuidar-se de si mesmo. Dormir  ficar desarmado,  no ser mais proprietrio do prprio corpo. Ah! Como o olho do meu av me enchia de dvidas! 
  O olho mgico do meu av no cansava de espiar. No era um olhar ameaador, de olho
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por olho e dente por dente. Se no parecia um olhar de peixe-morto, tambm deixava de ser um olho-gordo ou um olho raso d'gua. Seu olhar comprido derramava certa doura tmida sobre todas as coisas como um olhar de poeta. Mesmo olhando para depois de tudo, seu olhar no trazia inquietaes.
  Mas o olhar de meu av continuava me deixando atordoado. Imaginar que ele poderia estar lendo o que estava escrito dentro de mim, me afligia. E minhas palavras, ainda presas em minha garganta, eu as guardava por linhas tortas. Mas se amarradas, costuradas, construiriam uma orao inteira. Eu no sabia se meu av gostaria de ler a histria que ele escrevia no meu corao. Nem sei se ele gostava de oraes.
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  A falta de olhos sempre me perseguiu. Tive um galo que se chamava Jeremias. Como meu av, ele s via um lado do mundo. E no adiantava voar at So Paulo. No existia olho de vidro para galo. Nem culos escuros, para enganar as galinhas, ele poderia usar. Despistava a ausncia do olho deixando a plpebra sempre
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fechada. No me lembro se ele era cego do olho esquerdo ou do direito. Faz tanto tempo... Eu ainda nem usava culos. Chegava perto dele passando pelo lado cego e o abraava. Ele no me via e devia pensar que estava sendo abraado pelo mundo. Sentir-se amado pelo mundo traz uma emoo suave. Seu olho de ver se via entretido com o milho, o cisco, o cho. Eu no abraava meu av. Tinha medo de que seu olho de vidro piscasse para mim. Depois, olho de vidro no fica alegre nem triste.  to bonito quando um olhar sorri... Meu av tinha o rosto muito srio. 
  Muitas vezes desejei ver meu av chorando. Queria saber se olho de vidro contm lgrimas. Mas ele no chorava. Motivo ele tinha. No poder ver o mundo inteiro deve trazer ansiedade. Ver tudo pela metade traz tristeza. O mundo fica parecendo um retrato de meio-corpo. Na sala da casa, dependurado na parede, estava um retrato de meu av e da minha av, de meio-corpo. Dentro da mesma moldura eles pareciam felizes. O retrato deixa as pessoas para sempre. 
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  Mas, se meu av chorava, era escondido. Ele nunca deixava de trazer no bolso do palet um leno dobrado em cinco pontas. Nossa Senhora tinha sete espadas e sete dores. Meu av devia sentir mais de cinco punhaladas. E leno s tem serventia para o choro. O leno ampara as lgrimas de quem no gosta de rosto temperado.  bom sentir as lgrimas rolando pelo rosto como um rio quente.
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  Sempre gostei do sabor das lgrimas. Minhas dores duravam s o tempo de a lgrima chegar a minha boca. Quando eu passava a lngua e sentia o sal, esquecia a dor. A lgrima sempre salgou meu sofrimento com seu mistrio.
  Acho as lgrimas muito cheias de dizeres. Elas moram dentro da gente e aliviam as dores que tam-
bm moram dentro da gente. No sei por que elas no curam a dor antes de a dor doer. Mas vou deixar para falar de lgrimas depois. Chorar cansa! Depois de muita lgrima h que dormir um longo sono. Agora no quero dormir. Minhas tristezas esto maduras. S tristezas verdes precisam de gua para crescer. Tambm no sei a cor das tristezas maduras. Devem ser transparentes. 
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  Poucas vezes estive na casa de meu av. Nunca por longo tempo. Chegava e brincava de no querer saber de nada e acabava sabendo de tudo. Eu era curioso e guardava cada mincia na memria. Coisas no princpio confusas, eu s vim costurar mais tarde. A memria  uma faca de dois gumes. Ela guarda fatos que me alegram em recordar, mas tambm outros que desejaria esquecer, para sempre. A memria  como cobra: morde e sopra.
  Mas todos cuidavam de mim usando contidos carinhos. Lembro-me de um dia no quintal, com meu av, embaixo de um p de jabuticabas. Eram milhares de olhos pretos me espiando, me convidando a sabore-los. Queria que os olhos do meu av fossem pretos para me espiar, como faziam as jabuticabas. No gostaria de chup-los. Mas eles eram azuis e muito longe do mar. Mesmo assim eu navegava. Inventava que o mar tinha aportado nos olhos de meu av. Encarava seu olhar e permanecia ancorado. Mas ver o mar com olhos azuis  o mesmo que ver a noite com olhos pretos. No deve causar emoes. Difcil  ver o mar com 
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olhos castanhos. Vivia em mim uma vontade de conhecer o mar. Mas, se ele era longe, morava em mim um medo de meu olhar mudar sua cor. Meu olhar foi sempre descolorido.
  No sei se meus primos, tios e parentes se interessavam como eu pelo olho de vidro do meu av. Nunca diziam nada: nenhum comentrio, nenhuma interrogao, no pediam nenhum esclarecimento. S eu no me esquecia de seu olhar. Eu estava sempre de olho no olho dele. Um dia fiquei aflito. Vi uma formiga, muito mida, passeando sobre seu olho. O olho de vidro era seco, sem umidade. Talvez ela tivesse encontrado doura naquele vidro liso e frio. Ela andava acompanhando o crculo da pupila como se brincasse de ciranda ou comesse um olho-de-sogra pelas beiradas. Meu av continuava tranqilo, sem sentir nem mesmo uma cosquinha ou formigamento. Eu, com gastura, segurava meu riso. Tive vontade de espantar a formiga, mas deixaria meu av sem jeito. Ele nunca falava do seu olho. Quis devolv-la ao formigueiro. Senti medo de a mida criatura espalhar a notcia, e uma fila de formigas curiosas passarem a
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visitar o olho de vidro do meu av carregando folhas e sementes, em procisso. Mas a formiga partiu como tinha chegado: misteriosamente. E o olho do meu av no viu. 
  Com apenas meia vista meu av vigiava seus sete filhos: Maria, Tereza, Jlia, Diva, Afonso, Jaf e Joaquim. Tinha uma mais pequenininha, que se chamava Santinha, mas vou deixar de lado. Quando minha me morreu, a Santa foi morar l em casa e transformou tudo num inferno. Cismou de casar com meu pai que, nessas alturas, j amava outra.
  Meu pai, como meu av, no conseguia viver com o corao desocupado. Meu av tinha um filho para cada dia da semana, ou para cada fase da Lua, ou para cada cor do arco-ris, ou para cada nota musical. Ele no tirava o olho de cima de nenhum dos filhos se eles estivessem do lado direito. Os filhos preferiam ficar mais do lado esquerdo, escondidos.
  Maria era minha me. Mesmo vigiada se casou com meu pai, contrariando meu av. Nunca
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deve ter namorado pela rua Direita. Toda cidade tem uma rua chamada Direita, aonde as moas direitas passeiam. Isso, da minha me, eu sabia por ouvir dizer. Se escutamos por muitas vezes um mesmo assunto passamos a ser donos dele. Amavam escondido, entre uma viagem e outra que meu pai fazia passando pela cidade. Casaram-se. Ela fez seu vestido com o pano da cortina da sala. Um pano leve que a brisa soprava sem esforo. No levou arca com enxoval de linho bordado. Meu av dizia estar sem recursos. Viveram em muitos e diferentes lugares. Meu pai nunca teve um pouso certo. Onde aparecia trabalho, ele assinava o ponto.
  Viveram felizes por curto tempo. Minha me nos deixou cedo. Partiu contrariada numa segunda-
-feira. Ela era a primeira filha, primeira fase da Lua, primeira cor do arco-ris, primeira nota musical. Era um d ver minha me como cigana, sem eira nem beira, acompanhando o marido. Cada filho nasceu numa parada. Ela estava com 33 anos, idade de Cristo quando crucificado. Lembro-me de que quando sua dor era maior que a cruz, ela se assentava na cama, entre lenis e brancura, e se punha a cantar. A melodia invadia a casa, os cmodos, os quintais, os vizinhos. Sua voz afinada
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desafinava a nossa esperana. A msica foi sua maneira de prolongar a partida. No havia remdio maior que a cano para ultrapassar seu desespero.
  Ns ramos seis filhos felizes entre as alegrias da pequena cidade: cachoeiras, ruas, quintais, matos, rvores, escola e livros. Envolvidos pela saudade, passamos tambm a estar no mundo brincando com a tristeza, improvisando carinhos, sonhando apenas com o que j tnhamos. E quando as surpresas apareciam, mesmo pequenas, a vida virava uma festa.
  Tereza se enamorou de um caador. Ele trazia sempre uma espingarda ao ombro e os ouvidos atentos aos rudos das matas, aos pios dos pssaros. No perdoava nem beija-flor. Fechava o olho direito e mirava a presa com o esquerdo. No perdia uma bala. Meu av aceitou o casamento com louvor. Deveria guardar a inveja e a vaidade de possuir um genro que tinha como profisso usar apenas um dos olhos. Ele mostrava que dois olhos eram mesmo demais. Do casamento nasceu uma manada de primos, e todos com apelido de animal: anta, grilo, pardal, 
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formiga, coelho, preguia. Eu gostava do preguia por ser lento at para comer. Engolia tudo inteiro para no ter o trabalho de mastigar.   
  Jlia observou a casa, reparou os parentes, contemplou a cidade e teve medo do futuro. O corao engasgou. Arregalou os olhos e partiu para a capital. Dizem que escondia uma grande mgoa no peito. Nunca mais voltou. Virou enfermeira num hospital de loucos. Todos, como Jlia, viam o mundo de maneira que ningum suspeitava. A liberdade exagerada comandava tudo. Dedicou-se de corpo e alma  profisso e passou a falar a lngua deles. A loucura foi seu caminho. Uma loucura mansa sem perder a pacincia com a vida. Nunca soube se tia Jlia era feliz ou triste. Sei que era doce com o mundo, esperando uma visita que nunca chegou. Tinha uma casa, com dois cmodos e duas janelas. Viveu s, com duas cadeiras, dois pratos, dois garfos, duas facas, dois copos, dois travesseiros e uma indecifrvel esperana. 
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  Diva namorou todos os rapazes da cidade. Bonita, cabelos longos e pele morena, em casa passava todos os momentos de frente para o espelho. Meu av no falava palavra. Detestava espelho. Devia se assustar com aquela falta. Fazia a barba pelo tato. Diva se dizia religiosa e durante o dia ajudava nos ofcios da igreja. Nas noites freqentava velrios. Morria gente todo dia. Devia estar pedindo perdo a Deus com antecedncia. Para tapear seu pai, lhe confidenciava que sua vida terminaria num convento. S faltava decidir se seria Franciscana ou Carmelita descala. Todos fingiam acreditar em sua beatice, em sua caridade, para evitar trovoadas. Ela praticava a generosidade cotidianamente. Um dia fugiu para Gois, com um amor casado. Nunca mais deu notcias. Devia morar numa fazenda e vencer os dias aguando os canteiros de saudades ou fazendo tachos de 
amor-
-em-pedaos. Muitos foram feitos para amar muitos. Se teve filhos, eu no conheci meus primos.
  Afonso, o mais bonito, viajou para o Rio de Janeiro. Foi ver de perto o mar que o pai
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ancorava no olhar. Encantou uma bailarina e voltou casado. Nunca mais bebeu. Comentavam que ele foi o mais premiado dos filhos. Vivia danando na corda bamba. Amava e era amado, sem fronteiras. Passou a andar na ponta dos ps, tamanho seu cuidado e amor pelo mundo. Todos os habitantes da cidade viviam curiosos e invejosos. Queriam saber como era a vida de uma bailarina. Dentro de cada um de ns existe uma fora pronta para danar. Quando ela se debruava na janela, toda a cidade parecia desejar aplaudir. Bailarina naquele canto do mundo era coisa rara. Um dia deixaram Bom Destino e abriram um armazm em Conceio do Rio Par. Vendia de um tudo.
  Jaf era um enigma. Vivia em casa, fechado no quarto entre livros, escritos, papis. No era mudo, mas no falava. Dormia de terno e sem tirar as meias. S chegava  porta quando o carteiro passava. Nunca recebia cartas, mas sua esperana no morria. Todos lhe davam livros de presente. Tinha dois olhos, mas se negava a ver o mundo. Um dia um fiozinho de amargura escorreu vermelho por debaixo da porta. Ele 
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partiu e deixou todos com mais dvida e silncio. Ningum mais deitou em sua cama. 
  Joaquim foi ser militar. Carregava dois olhos azuis, que no eram de vidro, capazes de iluminar o mundo. Herana definitiva de seu pai. Sempre foi fiel s leis e amante da justia. Subiu na profisso e chegou ao mais alto grau da carreira. Casou-se. Sua mulher, obediente, me exemplar, teve tantos filhos quanto ele ordenou. Todos sobreviveram obedecendo  ordem e ao progresso. Comiam  mesa, com garfo e faca, e mastigavam com as bocas fechadas, observando um silncio de igreja. Meu tio cultivava um grande amor pelos relgios. Em todos os cmodos da casa escutava-se um tique-
-taque. Sua mania era acertar os ponteiros para no se perder no tempo. Passava horas e horas consultando as horas. 
  A cidade de meu av se chamava Bom Destino. Cidade pequena e plana, cansada de tanta paz. Dormia cedo e acordava com o canto dos galos. Um rio, com destino ao mar, dividia a vila
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ao meio. Nunca fui capaz de entender esse nome. Meu av era bem destinado. No dormia sem pensar no amanh. Minha av dizia que a Tereza, viva do Gonalo, fazia leitura do destino, nas cartas. Podia trazer de volta a pessoa amada. O mundo deveria se chamar Bom Destino.  um nome bonito para quem est aqui s de passagem. Como somos todos passageiros, a Terra toda deveria ser um bom destino. Meu av tinha tanto amor pela vida que no queria sair de seu destino nunca. No sei se pedia a 
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Deus para viver sete vidas, com flego de sete gatos.
  Mas meu av s devia ver o mundo inteiro quando sonhava. Para sonhar no se precisa de olhos. Sonho v alm de tudo. Ele nunca usava o sonho para jogar no bicho. O sonho, dizem,  uma jaula e basta ter sorte. Cada sonho  um animal. Todo sono inventa um sonho. Em Bom Destino vivia um bicheiro que se chamava Cordeiro. Ele no era santo, mas muitos faziam sua fezinha.
  Meu av me disse que sonhou com uma rvore carregadinha de frutas maduras. Pareciam laranjas, mas no eram laranjas. Pareciam
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mas, mas no eram mas. Sonho  mesmo assim, parece mas no . E, quando ele foi chegando pertinho das frutas, elas bateram asas e se transformaram em borboletas. Era um mar de cores viajando pelo cu adentro. A ele no mais se lembrou de laranja ou ma. Acordou com saudades das cores das borboletas. De fato, borboleta sem cor no  borboleta. E olha que meu av s devia ter visto a metade das asas. Nunca dei conta de pensar em uma borboleta descolorida, mesmo com meu olhar desbotado. Se ele tivesse jogado no bicho, ganharia uma rvore carregadinha de dinheiro.
  Mas tudo isso no tinha importncia. O que me preocupava era o olhar de meu av. Quando o dia estava claro, cu azul, sol alto, ele colocava seus culos escuros, *ray-ban*. Com seus olhos, assim cobertos, eu ficava mais tranqilo. Seu olhar no buscava por mim. Meu av ficava parecendo motorista de caminho. Naquele tempo eu no conhecia piloto de avio. Os pilotos cobrem os olhos para tirar a luz do caminho. O vazio brilha muito. A profisso mais bonita, naquele tempo, era ser chofer em estradas.
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No ter medo de distncia e trocar de destino, sempre. Ter encruzilhadas  poder escolher.
  Meu pai dirigia um caminho muito grande e bonito. Viajava para longe, levando manteiga para as cidades que s produziam po. Bom Destino tinha po e manteiga. Passava dias distantes e voltava trazendo uma carroceria de notcias. Eu ficava impressionado como era grande o mundo do meu pai. Ele colocava um travesseiro sobre seus joelhos, me assentava em cima e me entregava o volante para eu dirigir. Naquele tempo eu no sabia nem frear meus pensamentos. Tinha s duas pernas; imagina dirigir um caminho com dez rodas. Depois, como seria possvel eu aprender a dirigir, se minha alegria eram as paisagens! No caminho havia um espelho de lado. Eu apreciava ver meu pai olhando para a frente e correndo os olhos sobre o que estava atrs. Nesses momentos ele possua muitos olhares.
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  Meu av no tinha carro. Tam-
 bm, ele s tinha um olhar que no gostava de espelhos. Sempre andava a p pela cidade. Se bem que fazia s um caminho. Possua uma bengala com cabo de ouro e marfim. No era para facilitar sua direo. Tudo por uma questo de elegncia. Ele mantinha um andar nobre, olhava o mundo como se estivesse por cima, nas nuvens ou andando sobre as ondas. Meu av apreciava Strauss. Cumprimentava as pessoas apenas inclinando a cabea. O que ele economizava no olhar tambm economizava na fala. Com o chapu tombado para o lado esquerdo procurava esconder o olho da traio. Nunca soube se era medo ou respeito o que os vizinhos sentiam por ele. Subia a rua, e em cada fresta de janela havia um olho suspeitando sua passagem.
  Eu no gosto dos crepsculos ou das madrugadas. So momentos indecisos e fceis de trazer tristeza. Na madrugada sinto como se a noite tivesse preguia de nos deixar e o dia, preguia de comear, e eu, com medo de crescer. No crepsculo so as nuvens embaando tudo. Crepsculo  como uma estao onde muitos partem e muitos chegam. Todos ficam no meio do caminho. Saram
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e ainda no chegaram. Di muito esse lento instante. Uma nvoa desce sobre meus olhos.  como se estivesse atrs de uma cortina sem trilho.
  Pensava em meu av e gostaria de lhe oferecer um olho novo, de verdade, de presente. Um olho com duas meninas dos olhos. Assim, o mundo lhe pareceria turvo apenas na brevidade do crepsculo e na rapidez da madrugada. De manh ele ignorava o po com manteiga. Preferia brevidade, um bolo seco que precisava de muito caf para ajudar a engolir. Nunca vi um cisco incomodar o olho esquerdo do meu av.  um olho morto e ao mesmo tempo eterno. Ainda hoje ele continua me espiando.
  Com o olho esquerdo meu av amou minha av. Com o olho direito ele guardava uma paixo muito escondida. Escondida de ningum. Em cidade pequena nunca falta assunto. Todos sabiam do seu segredo, s o olho esquerdo fazia de conta que no sabia. Era um amor que servia de conversa para todas as horas. Se no falavam de meu av, lamentavam o sofrimento da minha av. Sua dedicao ao lar e aos filhos, e agora viva de marido vivo. Meu av devia possuir um corao dividido. Metade batia, enquanto outra
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metade ficava em silncio. Aprendi na escola que o corao mora no lado esquerdo. No sei se era tambm cego o corao de meu av. Eu amava meus avs. Compreendia o que faltava e o que sobrava em cada um deles. Para minha av faltava amor e para meu av sobrava paixo. Eu distribua, em partes iguais, o meu afeto. Quando a imensa solido pesava sobre minha av, eu me assentava ao seu lado, segurando sua mo, sem dizer nada. Toda palavra seria intil. Ela correspondia meu carinho com mais carinho. Deixava exalar uma cantiga to baixinho que eu precisava abrir bem os ouvidos. Sua voz era mais doce que os suspiros que ela assava em forno brando e que desmanchavam no cu da minha boca.
  Jamais pedi ao meu av que me levasse com ele em seus passeios pela tarde. No pensava em invadir seu destino nem destrancar seu corao. Percebendo minha cumplicidade, ele se aproximava de mim e passava a mo em minha cabea, como se benzendo ou abenoando meus pensamentos. Meu av estava sempre me lendo!
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  Minha av, que morava em seu olho esquerdo, se chamava Lavnia. Mulher alva como as nuvens, macia como as nuvens, leve como as nuvens e com cheiro de alfazema. Seu ofcio maior consistia em lavar os ternos de linho branco do esposo, que s a enxergava com o olho de So Paulo. Suas mos eram longas e as unhas, brilhantes de tanto esfregar a roupa. No dedo, uma aliana de ouro com data gravada. Nas orelhas, um par de brincos, presente da sua me. Lavnia lavava e enxaguava com um ar de anil para o branco ficar azulado como o olhar de seu ainda amado. Passava e engomava como se conhecesse a China. Soprava as brasas do ferro como se apagasse as estrelas da noite. Meu av se vestia e partia com o olho direito aberto. Sabia onde o amor o aguardava.
  Ele partia no meio da tarde. Andava pelo lado direito da rua, segurando a bengala na mo esquerda. Procurava as sombras dos muros como se sentisse calor. Tinha os sapatos engraxados, brilhantes e pretos como jabuticabas.
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Andava leve como os gatos em cima dos muros. Se chovia, trocava a bengala pelo guarda-chuva preto. Continuava procurando as sombras. No olhava para os lados. Sem ver, ele tambm achava que no era visto. Sabia o caminho de cor. Minha av reparava em sua partida e tinha certeza de sua volta. Eu ficava dividido, morando em dois coraes.
  Nas tardes, Lavnia se assentava  porta da casa, em uma cadeira de palhinha bem tranada. Deixava as janelas abertas para entrar a luz do poente. Com agulha na mo ela bordava. Com um dedal de prata protegia os dedos. O sangue mancharia as flores. Tecia em cores suas dores. No perdia o sorriso de quem sabia ter passado sua vez. Meu av apontava no fim da rua. Ela dobrava o bordado, mesmo parando no meio das ptalas. Passava a atiar o fogo. Punha a comida, quente, na mesa. Meu av dependurava a bengala no cabide da sala, tirava o palet, assentava e comia, sem palavras. Depois do jantar, s se interessava pela Voz do Brasil. E como era alta e longa a voz do Brasil.
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  Meu av trabalhava. Conhecia os segredos da homeopatia. Guardava dentro de uma mala de couro muitos vidros cheios de bolinhas brancas. Todas iguais para males diferentes. Eu no entendia nem acreditava. Doena, para mim, se curava com cataplasma, injeo, ventosa, poo. Os clientes chegavam. Ele fazia tantas perguntas que o adoecido nem mais precisava se confessar. Indagava desde o nascimento at o presente, sem se esquecer de conversar sobre o futuro. Nada podia ser ignorado. Depois, escolhia as plulas, enrolava em papel de seda e recomendava os horrios e os cuidados. Ele atendia em qualquer dia e em qualquer hora. Mas ningum se aventurava a procurar seus prstimos na volta do dia. Ele j havia dobrado o fim da rua para tambm se tratar. Homeopatia no cura nem olho cego, eu pensava. 
  A casa de meu av era silenciosa. Todas as palavras tinham sido ditas. Nada mais mudava do lugar. Mesmo no escuro se podia encontrar 
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uma agulha na gaveta do criado que tambm era mudo. Uma casa sem palavras  uma casa vazia. Palavra povoa tudo. Corta o silncio e, aonde chega, fica. Se a gente escreve, pode apagar, mas, se falamos, fica impossvel recolher as palavras. Palavra  como borboleta, bate as asas e voa. Palavra no nasce em rvore, ela brota no corao. A gente sabe que ela tem cor, porm cada uma guarda uma iluso. No alpendre da casa do meu av havia trs borboletas presas na parede. Suas asas eram de loua dura. Elas no partiam. Para voar  preciso asas leves e muito vazio pela frente. Para falar  preciso ter o que dizer.
  Como meu av tinha um olho sim e outro no, ele era um homem meio sim e meio no. Meio alegre, meio calado, meio forte, meio alto, meio carinhoso, meio desconfiado, meio solitrio, meio triste, meio bravo, meio amargo, meio da direita, meio da esquerda. Um dia sua ternura aparecia inteira. Outro dia no havia ternura nenhuma. Dividido por dois, meu av era meio-termo. At hoje, se me lembro de meu av fico meio na dvida. No sei se o retrato
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que guardo dele  com o olho de vidro ou no. No entanto,  um retrato que me olha e me atravessa como um fantasma. Um olhar que machuca, pergunta, amedronta.
  Meu av gostava de histria de assombraes e parecia manter um pacto com elas. Acreditava assim como Lavnia confiava em Deus. Minha av tinha um tero de continhas brilhantes. Quando tudo estava morno, o dia, a vida, a casa, o mundo, o destino, ela passava as contas e parava em cada mistrio. Vivendo entre o claro e o escuro, ela entregava tudo nas mos do Senhor. Ela sofria por ter ao seu lado o que havia perdido.
  Meu av vivia bem com as almas do outro mundo. Assombrao no tem memria, ele me afirmava. Quando aparecem aqui, esquecem o que so do lado de l. Ele me dizia ter um amigo-assombrao. Seu meio-corpo era coberto de plo e o outro meio, despelado. De um lado ele sentia frio, do outro sentia calor. Quando aparecia, mudava o tempo. Pedia gua quente e fria, e bebia sem levar o copo  boca. No tinha boca. Se a gente sentisse medo, ele nos
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abraava e nos matava num abrao com um lado quente e o outro frio. Meu av me dizia que a assombrao viria me visitar numa noite, se ele pedisse. Meu medo era tanto que at meu sono era espantado. 
  Minha av aliviava aquele pavor. Contando histria do Anjo da guarda, ela abrandava meu medo. Tudo no reino do cu era to bonito que a gente no pensava em nada, no sonhava nada, no precisava de nada. Eu tinha receio de, num lugar calmo assim, minha alma dormir para sempre. Sempre me perguntei se alma dorme. Nunca tinha visto cama para alma.
  Eu achava que tudo era imaginao de meu av, mas continuava com medo.  que ele tinha um olhar frio e outro quente. Tinha um olho que via e outro que s desejava. E se ele fosse tambm um fantasma? Sempre achei que meu av enxergava mais com o olho da mentira do que com o olho da verdade. Com o olho do desejo ele inventava. Com o olho da verdade ele s via o que j existia. Com olho frio a gente v assombrao e com olho quente s o que nos assombra. 
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  No s casos de almas do outro mundo meu av sabia contar. Ele amava as histrias dos Ciclopes. Antes de o sono chegar, eu me assentava ao seu lado direito. Ele, amoroso, me falava desses seres imensos, que possuam apenas um olho redondo no meio da testa. Alguns diziam, em poesia, que eram muito fortes, capazes de construir muros com grandes e pesadas pedras, que nenhum humano poderia carregar. Cercavam as cidades, protegendo os reinos. Outros, que eles passeavam pelos campos pastoreando ovelhas com uma delicadeza maior que suas foras. Conduziam os animais entre sons de flauta e cantigas de acordar.   Os Ciclopes, ele falava, eram filhos de Gaia e Urano, ou melhor, filhos da terra e do cu. Viviam na Siclia e amados por Zeus, o deus do Olimpo. Foram eles, tambm bons ferreiros, que modelaram os raios de luz que se desprendiam do corpo de Zeus.
  Quando eu me deitava, me punha a pensar. Se meu av, um dia, construsse um altar, no seria para Santa Luzia. Ele colocaria no trono os Ciclopes. 
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  Na igreja havia uma Nossa Senhora. Um manto azul cobria seu corpo, sobre nuvens de gesso, com as mos estendidas. Conforme o dia, eu entendia seu gesto de maneira diferente. s vezes suas mos me buscavam, outras vezes me empurravam. Tudo de acordo com o peso dos meus pecados. Ela possua dois olhos de vidro, tambm azuis. Em qualquer lugar da igreja que a gente estivesse, ela continuava a nos olhar. Minha me dizia que Nossa Senhora das Graas podia ver at minha alma. Eu nunca tinha visto minha alma. Isso significava que ela via o que eu no via. Eu pensava em meu av e compreendia por que ele s via metade de mim. E como  bom no enxergar tudo e deixar sempre um pedao para depois. Para ver com prazer  bom ir vendo devagarinho. E ver at a alma no  justo.
  Nos domingos e dias-santos a famlia assistia  missa. Missa longa, cheia de glrias, credos, benditos. Minha av cobria a cabea branca com um vu de fil preto. Tambm deviam ser transparentes suas tristezas maduras. Mantinha
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as mos postas agradecendo ao Senhor todo o desamor. Meu av, com seu olho de vidro, ajoelhava apenas com o joelho direito. Deixava o esquerdo fazendo companhia ao olho. Sempre retirava do bolso seu relgio e se certificava das horas ou se lembrava do Joaquim e dos seus tique-taques. No momento da comunho, pelo rosto dos fiis, eu sabia se a hstia tinha sido engolida ou se estava presa no cu da boca. Eles ficavam com uma cara entalada como se Cristo recusasse visitar seus coraes. Era um semblante misturando a aflio com o horror ao inferno.
  Havia no altar lateral uma imagem de Santa Luzia. Ela segurava um pratinho com dois olhos. Sempre achei que meu av gostaria de roubar o olho esquerdo. Assim, passaria a acreditar em milagre. Era uma Santa antiga, mas o olho direito  que estava solto no pires, e fcil de levar para casa. Mas os olhos no so iguais. Tem o direito e tem o esquerdo. Olho  como sapato, no d para trocar de p. Depois da missa a famlia voltava para casa muito cheia de graa, mas sem nenhum sorriso.
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  Quando visitei sozinho e pela primeira vez a casa de meu av, todos j estavam crescidos. Eram filhos criados com trabalhos dobrados. Para no ficar s, eu vencia o tempo sempre perto de algum. Mais tarde descobri que meu av vivia entre todos, mas sempre num deserto. Minha av, casada h tantos anos, continuava numa forada solido. Nem sempre estar perto  estar acompanhado. At a casa, cheia de janelas e portas, parecia dormir um sono profundo e infinito. Na chegada da noite eu me deitava no colcho de palha e o medo tomava conta de mim inteirinho. Eu estava entre tantos e, ao mesmo tempo, sem ter a quem pedir socorro. E na noite fria s a urina escorrendo quente entre as pernas me fazia carinho. Era o nico calor possvel. De vez em quando algum suspiro antigo cortava o silncio, me fazendo acreditar que ainda viviam.
  O quintal se estendia at o crrego. Com o corao descansado, seu rudo invadia o silncio com carinho. As guas corriam murmurando melodias para as pequenas piabas. Mas durante a noite, sem sono, o terror me cobria. O
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barulho das guas se fazia estrondo de tempestade. Eu fechava os olhos e escutava o pio dos pssaros pedindo amparo. O canto das corujas virava um lamento. E, se o vento soprava, meu pensamento mais disparava. Nesse momento eu queria meu av ao meu lado. Ele era minha certeza, e meu medo estaria pela metade. Mas a noite  inteira, e o dia no chegava nunca. Como me fazia falta o olho de vidro do meu av!
  Lavnia, como em todas as tardes, eu imagino, se assentou na porta da casa sobre a cadeira de palhinha. Bordou suas rosas com agulha fina, sem sangrar os dedos, mas perfurando o corao, caprichosamente. Em cada ponto amarrava uma disfarada melancolia. Eram pontos de cruz, ponto-atrs, ponto cadeia. De vez em quando rabiscava um olhar at a ponta da rua. A rua no trazia ningum. Retornava ao bordado costurando o imenso tempo. Naquela tarde teceu uma flor, outra flor e mais alguns espinhos presos nos ramos. A noite baixou, e no foi mais possvel avistar o fim da rua. 
  Entrou. No atiou o fogo. Deixou as cinzas cobrindo as brasas vermelhas como sangue.
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  A noite estava alta. Recostou na cama do lado esquerdo, mastigando a solido entre avemarias. No dormia. A madrugada veio, o dia veio e o Sebastio no veio. Ansiosa, minha av guardou o pressentimento s para si. Se no mais havia amor, restava a saudade de um tempo em que houve felicidade.
  Minha av se aprumou com o dia. Vagou pela casa perseguindo algum motivo para explicar a ausncia do marido. Nem o silncio, que tudo sabe, respondeu. Ela debruou na janela, buscando um milagre no fim da rua. Passou uma hora e mais duas horas e mais trs horas e s o vazio crescia. Entregando-se ao desamparo recorreu aos vizinhos. A histria se espalhou pelas ruas, de casa em casa, de porta em porta, de boca em boca. Nada. Todos teciam razes. Quem sabe viajou para Gois para estar com a Diva? E se partiu para a capital com saudades da Jlia? E se viajou para Conceio do Rio Par para visitar o Afonso? Mas o chefe da estao no confirmava sua partida. O telegrafista enviou recado para todos os parentes. Nenhuma resposta. A aflio aumentava. Meu av havia desaparecido.
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  Ao saber, tive medo de ser obra das assombraes. Ter sido levado para um mundo sem memria com um lado quente e outro frio. E se meu av tivesse perdido o outro olho? Estaria agora nas trevas. S guardava a lembrana da cidade, mas no podia percorrer os caminhos. Pensei pedir a meu pai que buscasse outro olho em So Paulo. Depois de tantos anos So Paulo j deveria fabricar olho de ver. E se morreu afogado ao atravessar a ponte que o levava para a felicidade das tardes? E se eu pedisse ao padre que rezasse uma missa aos ps de Santa Luzia?
  Minha me viajou para estar junto da minha av e dividir com ela a ausncia. Viagem lenta num trem que no chegava nunca. Locomotiva mais preguiosa que cobra quando engole sapo. Ela me levou junto, mesmo sabendo que eu no tinha serventia, mas apenas susto. Joaquim derramou a polcia pelas ruas. Revistaram toda a cidade com suas travessas e becos. Afonso chegou com a bailarina, os olhos assustados, as mos vazias, sem ter mais o que fazer. Tereza, com o marido em tempo de caa,
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apenas pedia notcias. Jlia permaneceu em silncio, sem perguntas. Diva l pelos lados de Gois, ningum sabia se ela sabia. Mas meu av no havia mais.
  Os dias venciam a esperana. Minha av, cheia de perdo, no varria a casa, no alvejava a roupa, no bordava flores e espinhos nas toalhas. No era importante preparar a mesa e nem havia fome. Seu olhar se fez vago, sua fala sem firmeza, seu corpo curvado. No corriam mais lgrimas. Seu rosto era molhado pelo quase luto. Certo pudor impedia minha av de se assentar  porta da casa. E mais dias venciam a espera. O tempo foi acomodando o desaparecimento. A dvida passou a ser a nica verdade. E como a dvida doa.
  Depois de atravessados tantos meses, tudo ganhou luz. Um boato se espalhou pelas ruas, em sussurros. Todos os moradores se assustaram com medo da verdade. Verdade  difcil de acreditar. Verdade traz dvidas. Restos de linho branco, agora encardidos de terra, foram encontrados
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distante da cidade, entre rvores, cascalho e capim. Sim, eram dele. No meio do que ficou vivia um olho de vidro azul e aberto, olhando para o cu.
  Meu av no deixou herana a no ser sua histria. Sobraram os ternos de linho engomados no guarda-roupa, a mala com as plulas, a cadeira de balano embalando todo o silncio do mundo. Mas para mim, depois de passar de mo em mo, restou seu olho de vidro, agora sobre minha mesa, dormindo num pires. E sempre que passo diante dele repito: olho de vidro no chora. Olho de vidro brilha por no ver. Nunca vou saber o que o olho de vidro do meu av no viu. 

               xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxo

Fim da Obra
 

